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Eduardo Shiota Yasuda is a front-end engineer, designer, and occasionaly writer and speaker. He handcrafts clean, readable, scalable code and interfaces; believes that Math and Design are everywhere.

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(re)Começando do zero

Herengracht, Amsterdam

Em agosto de 2013, tive que tomar uma decisão que poderia mudar minha vida completamente.

Desde a primeira vez que viajei para outro país, tive a certeza de que um dia moraria fora, nem que fosse por um tempinho. Toda vez que conheci um lugar novo, sempre pensei "como deve ser comprar pão e frios ali todo dia", ou "onde as pessoas vão beber depois de um longo dia", ou "como deve ser pegar este trem pra ir trabalhar". Dá vontade de fazer parte daquilo, e pra mim é apaixonante sonhar, sei lá, ir ao Central Park correr nos finais de semana, ou ir todo sábado comprar peixe fresco no mercado da Dapperstraat.

Quando você está sofrendo no trânsito de São Paulo–seja parado em um carro, em um ônibus lotado, na conexão entre as linhas verde e amarela, ou desviando de motoristas loucos enquanto pedala–é fácil ter esses sonhos. Você até acaba até esquecendo do Parque do Ibirapuera, ou da feira de orgânicos ali do lado (tesouros que minha mente erroneamente sempre enterrou em meio ao estresse).

Aí a oportunidade de tornar sonhos em realidade aparece. A proposta chega, e a decisão surge. Enquanto está tudo no mundo das hipóteses e do "e se", é fácil. Na hora de apertar o "Enviar" do email, o bicho pega.

2013 foi um ano ótimo. A vida de "ajuntado" provou-se deliciosa, demos lar a quatro felinos lindos, montamos um apartamento e uma rotina juntos. Meu pai venceu uma luta contra uma doença severa. Minha posição profissional me levou a vários lugares no Brasil que não conhecia. Pude fazer grandes projetos do zero, e em várias ocasiões ser a pessoa indicada para resolver problemas. Conheci muita gente bacana. Nessa situação, por que mudar?

Foi o que fiquei me perguntando ao acabar de escrever o email de resposta à proposta. E se, momentos instantes de eu tomar uma decisão entre clicar em "Enviar" e "Descartar", meu "eu-futuro" aparecesse pra me ajudar? Ele diria algo assim:

"Recomeçar do zero é difícil"

Eu sempre preferi ser observador e pesquisador antes de tomar uma ação. Sempre que tenho uma dúvida, prefiro primeiro tentar me virar sozinho–experimentando, usando "grep", lendo–, para depois pedir ajuda. Orgulho, burrice, sei lá. Mas aprendi muito assim. Não bastando, sempre procurei fazer as coisas da maneira mais eficiente. Sacar o dinheiro no menor tempo possível. Executar uma tarefa com o menor número de comandos. Encontrar o caminho mais rápido entre A e B. Acho que aprendi muito disso com o meu irmão, e só tenho agradecimentos por isso (fora tudo o que ele me ensinou de HTML, CSS e programação <3).

E o ápice da otimização é quando você tem plena consciência de como o mundo funciona à sua volta: o que o caixa do supermercado vai perguntar, quanto tempo um farol demora pra fechar, a melhor barraca de fruta da feira, o produto com melhor custo benefício, a melhor hora pra pegar o metrô. Sempre construí meu dia-a-dia através de pequenos desafios, e sempre acreditei que isso me fez crescer cada vez mais (ou me tornar um maníaco compulsivo =P).

Se meu "eu-futuro" aparecesse naquele momento do sim ou não, ele me lembraria disso, e de como eu iria sofrer mudando de país.

Ele me contaria da vez que comprou uma maionese de frango jurando que era peixe, porque não sabia como era frango em holandês. Ou de quando ficou 5 minutos olhando pra prateleira porque não sabia se aqueles tubos eram de detergente pra louça ou não. Ou de todas as vezes que perguntaram no supermercado se ele queria o recibo, e ficou olhando de volta com cara de interrogação. E de como quase foi atropelado algumas vezes por bicicletas, porque não sabia o caminho, por onde andar, nem como atravessar a rua direito. Ou de todas as vezes que pegou o trem errado ou passou do ponto.

Ele me falaria de como foi, depois de passar a vida no Brasil construindo e vivendo uma rotina, ter que escolher um novo apartamento, em bairros de nomes impronunciáveis. Falaria de como ele ouve no mínimo umas cinco línguas diferentes todo dia, e fala com pessoas de no mínimo 10 países diferentes.

Ele também falaria como é assustador trabalhar em uma empresa com mais de 6.000 pessoas, com centenas de desenvolvedores, em um produto que já se consolidou e tem um acesso gigantesco. Ou de como é desafiador–para alguém que usa ferramentas modernas de desenvolvimento e fala sobre elas em palestras–lidar com um código de 10 anos, e tentar melhorá-lo sempre, mas sem ficar over-engineering o tempo todo. Ou de como ele, em meio a tanta gente que enfrentou inúmeros problemas e ajudou a empresa a crescer, era apenas um novato com muito chão pela frente.

E falaria que ele, que teve a honra de ser chamado para vários eventos bacanas no Brasil, não era minimamente conhecido ali. E que teria que ralar muito pra ter a chance de mostrar seu trabalho para a comunidade.

Ele apoiaria a mão no meu ombro, e falaria "cara, recomeçar do zero é difícil".

A decisão

The stamp of change.

Eu tinha uma vida ótima. Um trabalho que eu amava, em uma empresa que eu gostava, vivendo com os amores da minha vida, com os amigos por perto, e com meus restaurantes favoritos a 15 minutos de casa. Umas das poucas e constantes reclamações minhas quanto ao Brasil sempre foram a violência, e o custo-benefício das coisas. Mas sempre pensei "meh, acho que vou ter que viver com isso".

E quando estive ali, entre clicar em "Enviar" ou "Descartar", as únicas coisas que eu tive para me ajudar a decidir foram o que eu sabia da minha vida até aquele momento, e os sonhos que eu tinha para o futuro. Nada concreto. Foi um chute, uma aposta.

Hoje estou feliz de ter clicado em "Enviar", e por ter recebido todo o apoio da Paula–a.k.a. agora como "esposa". Senão, aquele "eu-futuro"–o "eu-presente" que está escrevendo este texto–nunca teria existido. E entre altos e baixos de se mudar para a Holanda, ele não se arrependeu nem um pouco da decisão.