PechaKucha São Paulo Vol. 8 + Inspire Japan
Post com mega-atraso de duas três semanas, mas de coração. =]
No dia 28/05, a convite do pessoal do Grupo Elefante, fiz uma apresentação no evento PechaKucha São Paulo Vol. 8 + Inspire Japan, e falei sobre design, código, experiência… e sushi.
Sobre o PechaKucha

O evento PechaKucha surgiu no Japão em 2003, com o objetivo de possibilitar que jovens designers fizessem novos contatos e mostrassem seus trabalhos. O nome vem da onomatopéia de "bate papo", e seu sucesso fez com que logo fosse celebrado mundialmente. Hoje, novas idéias são promovidas e espalhadas em 417 cidades ao redor do mundo.
Inspire Japan
Após o terremoto do dia 11 de março de 2011, os fundadores do PechaKucha — Astrid Klein & Mark Dytham — decidiram que era hora das pessoas mostrarem que, mais do que sermos inspirados pelo Japão, estamos solidários a eles e mandando forças para sua reconstrução.
105 eventos ao redor do mundo participaram do movimento, com apresentações, demonstrações e oficinas sobre diversas partes da cultura japonesa.
20 × 20
O formato das apresentações é fixo e segue a regra "20 × 20": 20 slides, 20 segundos cada, avançados automaticamente. Isso garante maior foco nas idéias centrais, maior proximidade com o público, e maior espaço pra discussões.
Para mim, esse foi o maior dos desafios: contar uma história em 400 segundos, em 20 imagens. Foi difícil sintetizar e transmitir uma idéia em 6 minutos e 40 segundos, ainda mais tratando-se de um assunto tão profundo e tão querido por mim…
Sushi.
Como disse, falei sobre design, código, experiência… e sushi. O vídeo da apresentação está logo abaixo, mas para quem não pode vê-lo (ou está com preguiça), vou sintetizar suas principais idéias. Os slides estão no final do post.
O segredo do sushi
Para mim, o sushi, que surgiu no século VII na China e popularizou-se no Japão, é como uma arte aplicada de maneira projetual. Assim como o arquiteto tem claro em sua mente uma casa como seu produto final, o itamae (chef em japonês — aqui no Brasil é chamando de sushiman) sabe o resultado da combinação do peixe, do arroz, da faca e de suas mãos. Mas para chegar neste resultado, ele necessita de três itens:
- Habilidade do itamae: O itamae necessita de um mestre para ensiná-lo, e décadas aprimorando suas habilidades. Embora nunca a alcance, ele busca sempre chegar à perfeição.
- Ingredientes de qualidade: O sushi necessita de ingredientes frescos e de qualidade. Tudo o que for congelado ou criado a ração perderá sabor e textura.
- Simplicidade na apresentação: O sushi é estrela de seu próprio prato, e o peixe é estrela de seu próprio sushi. A apresentação deve ser minimalista, em uma superfície plana e limpa, ressaltando a beleza da simplicidade.
O design e desenvolvimento de interfaces
Assim como o sushi, a interface é composta de três ítens:
- Conhecimentos do designer: Uma boa interface é projetada, planejada. Ela é símbolo de todo o conhecimento do Designer de Interfaces em relação ao produto, ao público-alvo, aos padrões de usabilidade e anos de muita prática.
- Código bem escrito: A interface digital precisa ter um código eficiente e bem elaborado. Ele deve ser compreensível, extensível e testado; um mal código resulta em uma interface falha, de comportamento inesperado e difícil de manter.
- Experiência do usuário: Uma boa interface não é apenas o "rosto" de uma aplicação, e sim a maneira como ela se comunica com o usuário. Ela deve ser simples, e a simplicidade deve ser sua maior estrela. O usuário deve poder completar sua tarefa com sucesso e sem frustrações.
Sushi + interfaces = ?
E nesta hora você se pergunta: "por que diabos comparar sushi com interfaces?".
- Itamae ≅ Designer: Assim como o itamae necessita usar o resultado de décadas de treinamento para fazer um bom sushi, o designer necessita usar seu conhecimento, embasamento teórico e técnicas para projetar uma boa interface.
- Ingredientes ≅ Código: O bom sushi precisa de ingredientes de qualidade; uma interface digital precisa de um código de qualidade. O sucesso do produto final depende do uso de boas ferramentas e fundações; e atalhos, opções baratas e mal feitas, e produções em massa afetarão o resultado do projeto.
- Simplicidade ≅ Experiência: O bom sushi deixa claro, sem esforços, o resultado de décadas de treinamento e bons ingredientes. A interface também deve ser clara ao usuário: não importa a complexidade do serviço, as tarefas devem ser completadas da maneira mais rápida e direta. Ela deve esconder toda a complexidade de implementação e execução, e mostrar controles simples de serem manipulados e facilmente compreendidos.
O problema dos "rodízios de sushi"
A moda agora (pelo menos em São Paulo) é rodízio de sushi: variedades de sushi e outros pratos em quantidades absurdas e preços baixos. Claro, com consequências: para produzir esta quantidade absurda, é necessário usar ingredientes congelados, sacrificar técnica pela rapidez, e reduzir o cuidado com a apresentação.
O mesmo ocorre com o design e desenvolvimento de interfaces: a necessidade de produzir muito em pouco tempo acaba sacrificando o cuidado no projeto, a qualidade do código e a experiência do usuário.
Precisamos parar de fazer rodízios de sushi no design.
Não só de interface vive o sushi
Não restrinja essa prática do sushi apenas ao design e desenvolvimento de interfaces, ou ao seu ambiente de trabalho. Aplique isso em seus objetivos de vida, em sua saúde física e mental, ao seu esporte ou hobby favorito. A beleza desta iguaria está em aplicar em alguns alimentos o que deveríamos aplicar na vida como um todo: a habilidade de quem faz, a qualidade do que faz, e a simplicidade no final.
Créditos das imagens: M. Takeuchi, yoomeehq