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Eduardo Shiota Yasuda is a front-end engineer, designer, and occasionaly writer and speaker. He handcrafts clean, readable, scalable code and interfaces; believes that Math and Design are everywhere.

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Foursquare, redes sociais, privacidade e afins

Neste rápido post, relatarei brevemente uma experiência-experimento pela qual passei.

Deixei de usar o Foursquare por alguns meses — aproximadamente desde dezembro do ano passado. As razões são aquelas tradicionais que fazem os mais céticos abandonarem redes e serviços: "Qual a razão de usar isso? O que isso vai acrescentar em minha vida?". Pois bem, não pude responder a essas perguntas e deixei de fazer meus check-ins.

Na última atualização do Foursquare, o jogo ficou muito mais interessante e inteligente: ele analiza o seu comportamento em relação aos dos seus amigos. Ele compara sua atividade recente com sua atividade passada. Ele é capaz de dizer "Hey, seu amigo Fulano é prefeito deste lugar, aqui estão mais 3 pontos!" ou "Você não esteve em um restaurante polonês desde Maio de 2010!". Adicionar fotos e a aba "Explore" deixou o aplicativo muito mais útil também. Útil o suficiente talvez para voltar a usá-lo.

Pois bem, foi o que fiz. E chegando em casa, sem nem ao menos pensar nas consequências (mentira: pensei mas as ignorei), resolvi criar uma venue para o meu lar com um certo nome (o qual não vou citar para desde já preservar a identidade dos elementos do experimento). Ao tentar criá-la, o Foursquare me mostrou a existência de outra com o mesmo nome, a uns 10 quilômetros de onde moro. Intrigado, resolvi ver quem era o Mayor do lugar.

E é aí que resolvi fazer um experimento.

De cara, vendo o perfil da venue, já pude ver o primeiro nome da pessoa. Obviamente não vou divulgá-lo aqui — chamarei-a de Jane Doe. Como acho difícil existir alguma loja ou restaurante com este exato nome que escolhi, presumi que fosse sua casa.

  • Descobri que Jane Doe mora na Vila Madalena.

Em mais um "tap" no iPhone, vi a lista de lugares nos quais ela é Mayor. Mayorships, por exigirem check-ins constantes nos lugares, são os símbolos da rotina da pessoa.

  • Descobri os lugares que Jane Doe frequenta na Vila Madalena
  • Descobri, pelos perfis dos outros lugares, que ela trabalha entre a Faria Lima e o Morumbi.

Procurei pelo perfil dela na versão online do Foursquare, e consegui o username dela no serviço. Uma rápida busca por ele no Google, e consegui seu site (inativo), seu Facebook, seu Twitter, seu Flickr, seu YouTube, seu Yfrog e seu Twitpic.

  • Pelo Flickr, descobri a idade de Jane Doe, descobri que ela trabalha com moda, que foi/vai em eventos nerds, que tem uma cadelinha de estimação e uma tatuagem que eu deveras invejei, e que acabou de se mudar (ou a casa está em reforma). Descobri também que ela já viajou para a Bahia, para Campos do Jordão, e outros países afora.
  • Pelo Formspring, descobri sua altura e peso, e que aparentemente as pessoas gostam de saber de sua vida sexual.
  • Pelo Twitpic, descobri que ela tem outra tatuagem que eu deveras invejei, que gosta de esmaltes coloridos, que possui muitas Melissas e que já foi loira.
  • Pelo YouTube, pude ver os vídeos de suas viagens.
  • Pelo Facebook, além de obviamente poder visualizar suas quase 2000 conexões, descobri o perfil de boa parte de sua família buscando pelo seu sobrenome.

Usando o cache do Google pude ver posts do seu blog inativo.

  • Descobri seu signo e time do coração.
  • Descobri que já foi funcionária pública, fisioterapeuta, e já mudou de área novamente.
  • Descobri seus apelidos.
  • Descobri seu MSN, Gtalk e e-mail do Yahoo.

E este foi o experimento. Com uma única informação, em um espaço de 30 minutos, descobri:

  • Nome completo
  • Idade
  • Apelidos
  • Área de atuação
  • Características físicas
  • Endereço
  • Informações sobre sua família
  • Passado pessoal
  • Gostos gastronômicos e culturais
  • Rede de amigos
  • Viagens que já fez
  • Partes de sua rotina
  • Perfis em 7 redes/serviços diferentes, MSN, Gtalk e e-mail do Yahoo

As únicas informações das quais não pude ter 100% de certeza foram sua terra natal (mas desconfio, pela cidade de seus parentes no Facebook e pelas fotos no Flickr), e seu emprego atual.

Creio que boa parte dos usuários dessas redes sociais e serviços têm consciência dos problemas de privacidade que eles trazem. Creio que a tal Jane Doe do experimento conhece a Internet o suficiente para saber dos seus riscos. Seu Facebook é fechado, sendo possível apenas visualizar seus amigos. Mas o cruzamento dos diferentes perfis pode ser o suficiente para construir um perfil online e offline completo de uma pessoa.

E ainda assim compartilhamos boa parte de nossas vidas, momentos pessoais e rotina, como se apenas nossos amigos se interessassem. De fato, talvez apenas eles se interessem. Diabos, talvez nem eles se interessem.

Mas eu não sou amigo de Jane Doe, e provavelmente já sei muito mais de sua vida do que muitos de seus amigos. Só precisei de uma busca e 30 minutos do meu dia.

E sim, eu poderia estar no lugar dela. Faça o teste! ;D