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Eduardo Shiota Yasuda is a front-end engineer, designer, and occasionaly writer and speaker. He handcrafts clean, readable, scalable code and interfaces; believes that Math and Design are everywhere.

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An Event Apart 2010 e a Morte da Web

Olhe por um momento para os últimos 10 anos que se passaram, e responda a pergunta: o que mudou?

As respostas são incontáveis: a presidência dos Estados Unidos passou de Clinton, para Bush, para Obama. Michael Jackson se foi. A conscientização ambiental cresceu, assim como o óleo nos oceanos graças à BP. A África do Sul sediou sua primeira Copa do Mundo, o Brasil foi de FHC para Lula, o WTC caiu e Saddam Hussein morreu.

Na tecnologia, o Windows 98 SE foi para Windows 7, o Ubuntu popularizou o Linux, e o Mac OS X ampliou sua massa de usuários. O mundo mobile explodiu com o iPhone. O web design ganhou importância, as redes sociais surgiram e a rich media chegou às massas pelo YouTube. Google nasceu e virou deus da Internet, a Apple ganhou uma igreja de seguidores fanáticos e uma legião de inimigos. O Flash nasceu, virou símbolo do futuro, e hoje é apedrejado pelos padrões do HTML5. A web virou 2.0, e depois perceberam o quanto é ridículo ela ter uma versão. A web está morta. Longa vida à Internet. Mas ela vai ressucitar, assim que perceberem o quanto é ridículo ela ter uma morte.

E foi justamente relembrando as mudanças tecnológicas do mundo, que Jeffrey Zeldman introduziu e Jeff Veen concluiu brilhantemente o An Event Apart 2010.

Um evento à parte

O nome do evento é autoexplicativo. Estive em muitos eventos de tecnologia e web no Brasil, e acompanhei alguns do exterior, e o An Event Apart foi de longe o que mais teve influência em minha carreira. Estive na edição de 2008 em Chicago, e saí com a mente renovada de idéias. Este ano não foi diferente. Em todo momento, sua mente é bombardeada por novas inspirações, técnicas e informações. Os palestrantes são geniais. Os slides são coesos, bem pensados e bem executados. As apresentações são impecáveis e hipnóticas.

Em 2010 as tecnologias e os conceitos da web deram um avanço colossal, então, para a edição deste ano, nada mais apropriado do que uma abertura contando a história da Internet. Jeffrey Zeldman conduziu os participantes a uma breve retrospectiva desde 1452 – invenção da imprensa por Gutenberg – à interação ubíqua com a Internet que vivenciamos hoje.

Jeffrey Zeldman no AEA Minneapolis 2010
Jeffrey Zeldman no AEA Minneapolis 2010

As outras 10 palestras que ocorreram nos dois dias foram consistentes, e algumas surpreendentemente contraditórias em um ótimo sentido: mostraram diferentes visões sobre temas similares. Quem trabalha com web, seja designer, programador de sistema, programador de interface ou até mesmo enterpeneur, pôde ficar satisfeito. Os gurus de interface Eric Meyer, Nicole Sullivan, Dan Cederholm e Andy Clarke mostraram as técnicas mais atuais para aproveitar as últimas tecnologias de HTML e CSS. Luke Wroblewski e Ethan Marcotte provaram que não podemos pensar mais em um monitor de computador como único substrato, sendo que iPhones, Androids e iPads são todos capazes de acessar a Internet onde quer que estejamos. Kristina Halvorson, Jared Spool, Jeremy Keith e Aarron Walter ensinaram que o ser humano não é uma máquina, um objeto, e precisa se sentir amado – e nossas interfaces devem refletir esse desejo.

E finalizando um espetacular evento, Jeff Veen, de uma maneira emocionante, mostrou como a web funciona, como usufruímos dela, e porque dizer que ela está morta é uma imensa besteira. No fim, os aplausos e tweets emocionados falaram por si.

Jeff Veen no AEA Minneapolis 2010
Jeff Veen no AEA Minneapolis 2010

The web is not dead. Long live the web.

Um dos últimos slides do Veen foi a famosa e controversa capa da Wired de setembro. Com um fundo vermelho e letras gigantescas, a revista afirma: "The Web is dead". A matéria principal foi assunto e alvo de muita discussão e argumentação na Internet, alguns concordando em partes, muitos discordando totalmente.

Capa da Wired: The Web is Dead
Capa da edição de setembro da Wired

E Jeff, pedindo desculpas à editora (antiga empregadora sua), declarou que não poderia discordar mais em relação ao que foi escrito.

Chris Anderson e Michael Wolff afirmam que a Web como conhecemos morreu. Segundo eles, num futuro próximo os navegadores deixarão de existir, assim como os websites, e o conteúdo passará a ser consumido por aplicativos e interfaces agregadoras, e a Internet será provedora de interfaces de comunicação (APIs) para que haja esse consumo. Os web apps – aplicativos online como Google Docs e Gmail, as redes sociais – Facebook, Orkut, Twitter – e sites de conteúdo especializado – como o IMDb ou a Wikipedia – deixarão de existir como websites, passando a oferecer seu conteúdo por meio de clientes externos, como aplicativos de iPhone, por exemplo. Para eles, o HTML é uma linguagem ultrapassada.

A principal mensagem do An Event Apart, ao contar a história da Internet e ao colocar as últimas tecnologias em foco, é a de que… não, a Web não está morta. Dizer que o futuro está no acesso fechado – por meio de aplicativos, redes privadas – e que o HTML está morrendo não faz o menor sentido. O ano de 2010 e a explosão do acesso mobile à Web por meio de navegadores Webkit fizeram com que o HTML5 e CSS3 recebessem a devida atenção que merecem.

São tecnologias acessíveis: as tags semânticas tornam os documentos mais completos e significativos, o CSS3, com suas animações, transformações e seletores, tira a carga de processamento que outrora era do JavaScript, tornando páginas completas funcionais em dispositivos móveis. São tecnologias prontas para serem utilizadas: apesar da previsão do HTML5 ser uma "Candidate Recommendation" em 2012 e uma recomendação oficial apenas em 2022, os navegadores mais recentes (Chrome, Safari, Firefox, Opera, Internet Explorer 9) já estão o implementando de maneira consistente. Muitos módulos do CSS3 já estão sendo implementados por meio dos "vendor prefixes". Usando técnicas como graceful degradation e progressive enhancement, é possível desenvolver páginas acessíveis a navegadores mais velhos, porém com melhor visual e experiência nos mais novos. Utilizando CSS3 Media Queries, é possível fazer um responsive design, que se adapta ao usuário – esteja ele em um desktop, em um smartphone ou em um tablet.

As novas tecnologias estão prontas para deixar a Internet mais acessível, através de uma Web mais aberta. Hoje, é possível que um usuário possa ter uma experiência igualmente satisfatória em um desktop, em um celular ou em uma tablet. A Web não morreu; ela só está começando de verdade. Basta construí-la da maneira certa.